Logística e Compras entram no centro da estratégia das empresas no Brasil
- Renan Leopoldo

- 6 de mai.
- 4 min de leitura
Frete mais regulado, expansão dos centros de distribuição e pressão por eficiência mostram que a integração entre logística e compras será decisiva para a competitividade das empresas brasileiras.
A logística brasileira voltou ao centro das discussões nesta semana. Mas o destaque não está apenas no transporte, nos centros de distribuição ou nas entregas mais rápidas. O ponto principal é mais profundo: a logística está cada vez mais conectada à área de compras, à gestão de fornecedores, à formação de custos e à estratégia de competitividade das empresas.
Durante muito tempo, compras e logística foram tratadas como áreas separadas. Compras negociava preço, buscava fornecedores e emitia pedidos. Logística cuidava do transporte, estoque, armazenagem e entrega. Porém, o cenário atual mostra que essa divisão está ficando ultrapassada. Em um ambiente de frete pressionado, novas regras regulatórias, expansão do e-commerce e necessidade de maior eficiência, comprar bem não significa apenas pagar menos. Significa comprar com planejamento, previsibilidade, rastreabilidade e visão de cadeia.
Um dos principais assuntos da semana foi a publicação de regras técnicas pela ANTT para a geração do CIOT, o Código Identificador da Operação de Transporte. A medida busca padronizar os processos de contratação de frete, ampliar a rastreabilidade das operações e reforçar a fiscalização do piso mínimo no transporte rodoviário de cargas. Na prática, isso muda a rotina de transportadoras, embarcadores e empresas que contratam frete no Brasil.
Para a área de compras, esse movimento é extremamente relevante. A contratação de transporte passa a exigir mais atenção documental, integração com sistemas, validação de custos e conformidade regulatória. O frete deixa de ser apenas uma negociação de preço por quilômetro ou por viagem. Ele passa a envolver governança, risco, compliance e controle operacional.
Isso significa que compradores que atuam com contratação de frete, transportadoras, operadores logísticos, insumos ou distribuição precisarão olhar além do menor preço. Será necessário avaliar se o fornecedor cumpre regras, possui documentação adequada, opera com rastreabilidade, atende prazos e oferece segurança jurídica para a operação.
Outro ponto importante veio da Pesquisa de CPOs & CSCOs 2026, divulgada pelo Procurement Club. O levantamento mostrou que as áreas de Compras e Supply Chain estão sendo pressionadas por eficiência operacional, seletividade nos investimentos, fortalecimento da governança e aumento da produtividade com uso de automação, analytics e ferramentas digitais.
Esse dado confirma uma mudança importante no mercado. Compras deixou de ser apenas uma área operacional e passou a ser uma área estratégica. O comprador moderno precisa entender custo total, lead time, risco de fornecimento, impacto logístico, estoque, qualidade, prazo de entrega e nível de serviço. Em outras palavras, não basta comprar barato. É preciso comprar melhor.
A pesquisa também aponta que muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para avançar com inteligência artificial e automação porque possuem problemas básicos de processos e estrutura de dados. Isso é um alerta para empresas brasileiras que desejam modernizar sua cadeia de suprimentos. Antes de pensar em tecnologia avançada, é necessário organizar cadastro de fornecedores, histórico de compras, indicadores, contratos, estoques, parâmetros de reposição e dados logísticos.
Enquanto isso, o e-commerce continua acelerando a transformação da logística no país. A Shopee inaugurou novos centros de distribuição em regiões estratégicas como Espírito Santo, Paraná e Ceará. As unidades operam com modelo de cross-docking, em que os produtos chegam, são separados rapidamente e seguem para hubs de última milha ou destino final. Juntas, as novas estruturas têm capacidade para processar até 700 mil pedidos por dia e devem gerar cerca de 900 empregos.
Esse movimento mostra que a disputa do varejo digital não está apenas no preço do produto, mas também na eficiência da entrega. Quanto mais próxima a mercadoria estiver do consumidor, menor tende a ser o prazo de entrega e maior a previsibilidade da operação. Para compras, isso muda a forma de pensar abastecimento. O fornecedor certo não é apenas aquele que oferece o menor custo unitário, mas aquele que consegue atender a malha logística com rapidez, consistência e menor custo total.
A Amazon também ganhou destaque ao lançar o Amazon Supply Chain Services, uma iniciativa que abre sua estrutura logística para empresas de diferentes setores, oferecendo soluções de frete, distribuição, fulfillment e entrega. Embora a aplicação inicial esteja ligada ao mercado internacional, a tendência é clara: grandes empresas estão transformando logística em plataforma de serviço.
Esse movimento reforça uma nova lógica competitiva. A empresa que controla melhor sua cadeia de suprimentos consegue reduzir prazos, melhorar a experiência do cliente, aumentar previsibilidade e ganhar eficiência. A logística deixa de ser vista como custo inevitável e passa a ser tratada como diferencial estratégico.
No Brasil, essa discussão é ainda mais importante. O país convive com grandes distâncias, forte dependência do transporte rodoviário, custos elevados, gargalos de infraestrutura e alta complexidade tributária e operacional. Nesse cenário, a integração entre compras e logística pode representar uma vantagem competitiva decisiva.
Empresas que compram sem considerar impacto logístico podem enfrentar estoques excessivos, rupturas, atrasos, fretes emergenciais, baixa confiabilidade de fornecedores e aumento do custo total. Por outro lado, empresas que integram compras, estoque, transporte e planejamento conseguem negociar melhor, prever demandas, reduzir desperdícios e melhorar o nível de serviço.
A principal leitura da semana é clara: logística e compras não podem mais trabalhar de forma isolada. O mercado exige uma visão integrada de Supply Chain. A área de compras precisa entender logística, e a logística precisa participar das decisões de compras.
O comprador do futuro será cada vez mais analítico, tecnológico e estratégico. Ele precisará dominar dados, indicadores, negociação, gestão de riscos, contratos, fornecedores e impacto operacional. Já o profissional de logística precisará entender cada vez mais de custos, suprimentos, planejamento e relacionamento com fornecedores.
No fim, a competitividade das empresas brasileiras dependerá da capacidade de conectar essas duas áreas. Quem conseguir integrar compras e logística com dados, processos e estratégia terá mais força para enfrentar custos elevados, mudanças regulatórias e consumidores cada vez mais exigentes.
A logística brasileira está mudando. E a área de compras precisa mudar junto.



Comentários